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Por que a dificuldade de dizer NÃO?

Disse um sim quando deveria ter dito não. Senti raiva. Dormi mal naquela noite.

dificuldade de dizer não

No dia seguinte, caminhando, pensei em um ensinamento que tinha escutado nas aulas de Tao sobre Yan Hui, um dos discípulos mais agraciados de Confúcio:

“Não deixar a raiva passar de um dia.”


Me apropriando cada dia mais das práticas do CI, caminhei observando minhas sensações. O contato dos pés tocando o chão, o peso do corpo, a musculatura que tensionava ou relava ao caminhar… 

Observava as emoções: em que parte do meu corpo a raiva se mostrava? A prática do CI busca acolher todas as emoções sem julgamento, nos tornamos testemunhas de nossas emoções, reconhecendo que emoções estão no corpo e se expressam por sensações. 

Por fim, reconheci que eu não estava com raiva de uma pessoa em especial, mas que sentia aquela raiva sempre que entrava no padrão de dizer sim sempre que tenho dificuldade de dizer NÃO.

Um simples exercício para lidar com a dificuldade de dizer NÃO.

Gabor Mate propõe 4 perguntas para reflexão:

      1. Onde tenho dificuldade em dizer NÃO?

      2. Qual é a história que eu conto a mim mesma sobre porque não digo NÃO?

      3. Essa história é verdadeira?

      4. Qual é o impacto em mim quando deixo de dizer NÃO?

Há consequências em dizer NÃO. Pensando na minha situação, eu temia perder a amiga e uma importante relação. Mas há consequências ainda maiores em suprimirmos a nós mesmos. Fiz então minha reflexão:

      1. Compreendi que tem um medo de rejeição, de não ser aceita, e daí sempre digo sim para agradar ao outro, e vou contra minha própria vontade e direção.

      2. Eu tinha razões e argumentos palpáveis para dizer NÃO, mas me contei algumas histórias para justificar o sim:

. Vou ser egoísta se disser não.

· Sou uma pessoa má dizendo não.

· Ela não vai me perdoar.

· Ela vai ficar com raiva de mim.

· Ela não vai mais gostar de mim e vai comprometer nossa amizade.

· E vou criar uma dificuldade para ela ao dizer não.

· E, além disso, ela é minha amiga. Nossa amizade estará ameaçada.

· Não é justo eu dizer não.

· Estou querendo controlar as coisas se disser não.

     3. Quase nenhuma dessas histórias são verdadeiras! Outras, como a possibilidade de a pessoa ficar com raiva de mim se escutar um não, ou até perder a amizade, podem ser verdadeiras. Mas daí compreendo padrões bem antigos que aprendi lá na infância: quando alguém fica com raiva de mim, logo interpreto que há algo de errado comigo, é um sinal de desaprovação, não aceitação, rejeição - por isso, agradar e dizer sim é mais seguro para eu evitar entrar em contato com esta ferida, porque dói.

     4. Não saber como dizer NÃO, faz com que os meus “sims” não signifiquem nada.


“Para podermos dizer sim genuinamente, com autenticidade, temos de ser capazes de dizer NÃO.” (Gabor Mate)

De onde vem a dificuldade em dizer NÃO?

Gabor relembra que, quando crianças, era nossa especialidade dizer NÃO. Bebê não gostou da comida. O que faz? Cospe e vira a cara. Pai manda a criança tomar banho. Ela está brincando e diz o que? NÃO. Por sinal, é uma das primeiras palavras que uma criança aprende a falar. Aprendemos a dizer não antes de aprender a dizer sim. E muitos pais acham essa fase terrível. E nada há de errado com isso, pois é uma fase essencial para o desenvolvimento humano. Mas daí, algo acontece…

A criança tem duas necessidades básicas:

Vínculo (attachment): é a vontade de estar perto de outro ser com o propósito de ser atendido ou cuidado. Até os passarinhos querem estar perto da mãe pássaro ou do pai pássaro, e vice-versa, caso contrário, temem perder a vida. Quanto mais imaturos formos, mais poderoso é esse impulso de criar vínculo. Sem isso, nos sentimos desamparados. Quanto mais dependentes formos, mais vulneráveis ficamos. Sem o mecanismo do vínculo, não vai ter alguém para nos alimentar, proteger e cuidar.

Autenticidade: é a necessidade de estar em contato consigo mesmo. Isso é tão essencial quanto a necessidade de vínculo. Quando os seres humanos viviam na terra há mais de 150 mil anos atrás, viviam na natureza. Imaginem um tigre se aproximando de você. Ele abre a boca e começa a se aproximar. Você vê seus dentes, a boca salivando. Será que nessa hora se perguntaria se o tigre é amigável, se está com fome, ou algo assim? Pararia pra pensar e observar? Quanto tempo sobreviveria assim? Não muito. A sensação instintiva tem que ser ativada imediatamente. Se você não estiver em contato com seus sentimentos, vai morrer. E esse contato com os sentimentos é o que Dr. Gabor nomeia de autenticidade. Auto é o Eu. A palavra “autêntico” remete a estar em contato consigo mesmo, com o seu Eu.

Mas imagina agora uma criança de 2 anos que pede para a mãe que lhe dê biscoitos antes do jantar. A mãe diz: “Não, nada disso! Ou não vai ter fome quando estiver pronto o jantar”. Como acha que a criança se sente ao não receber os biscoitos? Frustrada, talvez comece a fazer birra. Se os pais não souberem como lidar com a raiva da criança, ou não aguentarem a explosão emocional da criança e a colocam de castigo até ela se acalmar, qual a mensagem que a criança entende? A mensagem para a criança é que se ela ficar zangada, com raiva, não será aceita ou amada. E ela expressa sua emoção da forma que consegue, toda desordenada em sua imaturidade. Não é o ponto aqui atender aos desejos da criança a qualquer momento, mas ajudá-la a expressar suas emoções. Quando a criança recebe com frequência a mensagem de que os pais rejeitam sua expressão de emoção, o que vai fazer com o tempo é criar uma crença que pode ser algo assim: “Para manter o vínculo com meus pais e ser amada, preciso suprimir a minha raiva.” A perda de autenticidade acontece quando a criança deixa de expressar suas emoções mais espontâneas por medo de ser rejeitada. Não é uma questão de escolha nesse contexto. A criança vai sempre escolher o vínculo em detrimento da autenticidade. E isso não é bom nem ruim. É algo necessário por questão de sobrevivência. E essa é a história da infância de quase todos nós.

A dificuldade de dizer NÃO surgiu da necessidade de sobrevivência.

Não é uma atitude consciente aos 2 ou 3 anos de idade escolher o vínculo em detrimento da autenticidade, é uma adaptação. “Vou ser quem você quiser que eu seja, assim, serei amada”. Só que isso se torna um mecanismo automático de defesa que fica programado no nosso cérebro e no corpo pelo resto da vida. Por isso, a própria palavra NÃO desperta medo. Por pura auto-proteção, atacamos a nós mesmos quando dizemos sim enquanto queremos dizer NÃO. E daí vem a culpa como uma forma de se manter em equilíbrio.

Por querermos evitar o sentimento de culpa, começamos a dizer sim quando, de fato, queremos dizer NÃO.

O corpo diz NÃO, mas a boca (ou a mente) insiste em dizer sim. O melhor indicador dessa incoerência é a culpa. Se a culpa surgir, não há motivos para evitá-la. É ela que mostra o caminho de possibilidades para a mudança.

As consequências de quem aprende a dizer NÃO
Há consequências em dizer NÃO. Esta tensão entre vínculo e autenticidade é inerente.

Lembro como se fosse hoje da minha decisão de ir para a Alemanha contra a vontade dos meus pais. Eles tinham seus temores e bons argumentos para me impedirem de ir. Mesmo compreendendo seus medos, eu tinha uma forte intuição para ir. Pela primeira vez em minha vida senti um forte impulso de dizer sim para a minha vontade, passando por cima da vontade dos meus pais. Esse foi um exercício de autenticidade, mas resultou na quebra do nosso vínculo. Não foi legal ter meus pais brigados comigo pelo fato de eu ter viajado sem o consentimento deles. Doeu. Por eu já ter iniciado minha fase de jovem adulta, eu tinha condições de sobreviver, mesmo sem aquele vínculo, então, enfrentei as consequências e a dor, já supondo que aquilo seria temporário. Mas quando criança, não há essa escolha, até porque, o sistema nervoso de uma criança não está pronto para suportar a dor de uma rejeição. A criança nem sobreviveria sem a presença dessa pessoa. E aqui entra o trauma. A criança depende totalmente dos cuidados de um adulto, então, suprime e congela suas emoções para poder manter o vínculo com as pessoas que cuidam dela.

Com o passar do tempo, consegui reestabelecer a relação com meus pais. Mas o custo emocional do meu sim foi alto.

Ser autêntica dá medo. Dizer sim para a vontade dos meus pais teria sido um não para mim. Mas romper com uma relação leva para aquele lugar que mais temo entrar: da rejeição, da não aceitação, da desaprovação. Mas será que todo o amor de uma relação de pais e filha dependia do meu sim para eles? Eu sei que eles tinham essa expectativa, e eu quebrei, mas algo dentro de mim dizia que eu podia dar aquele inesperado NÃO e continuaria sendo amada.

Gabor sugere ouvirmos mais das nossas conversas internas. Elas vão dar bons indicadores das histórias que estamos nos contando.

Sempre teremos momentos de decisão em que teremos que escolher entre vínculo ou autenticidade. E vamos descobrir quem nos ama de verdade, quem são nossos verdadeiros amigos, que relações realmente aguentam quando expressamos quem realmente somos. Os verdadeiros amigos provavelmente vão dizer: “Que bom te ver assim, sendo verdadeira, colocando limites e se respeitando.” Os não amigos devem dizer algo assim: “Oh! Ela se tornou tão egoísta e arrogante. Não quero mais saber dela”. Talvez algumas pessoas fiquem magoadas, imaginando que estão sendo abandonadas. Mas esse trauma é o trauma que elas terão que lidar.

Tentar permanecer no vínculo com alguém às custas da autenticidade tem graves consequências, podendo levar até mesmo ao adoecimento. Há pesquisas que indicam uma forte correlação entre doenças autoimunes em pessoas que não sabem dizer NÃO.

Gabor orienta a não se forçar, como se criasse um novo mantra: “a partir de agora, devo ser autêntico e dizer sim só quando for sim, e não quando for não”. O que mais importa é observar a tensão que existe dentro da gente quando não estamos sendo autênticos. E lembrar que às vezes vamos dar um sim sem autenticidade, mas que já não será um ato inconsciente e automático. Termino essa reflexão com uma frase de James Baldwin:

“Nem tudo que confrontamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja confrontado.”

[Original: “Not everything that is faced can be changed, but nothing can be changed until it is faced.”]

Desejo que todos possamos nos confrontar com nossas sombras, levando luz para lugares ainda inexplorados.
Referências:

Course with Gabot Mate: „Returning to wholeness — An online course to understanding and integrating trauma (Module 3)

Course with: Foundational Teachings in Collective Trauma (Module 1)

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